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Uma carreira construída no serviço, na escuta e na Justiça como compromisso humano

Confira entrevista com o presidente da Seção de Direito Criminal. A trajetória do desembargador Roberto Solimene revela uma Magistratura moldada menos por cargos e mais por valores. Filho de uma família de imigrantes italianos, formado em um ambiente de simplicidade, transparência e trabalho, Roberto Solimene construiu sua identidade profissional ancorada na proximidade com as pessoas e no senso de serviço público. Antes mesmo de ingressar na Magistratura, sua atuação na Administração Municipal e na área da Saúde lhe ensinou algo essencial: ouvir, estar presente, pidir responsabilidades e compreender que a Justiça começa no contato humano, não apenas na técnica jurídica. Essa formação prática e humanista se refletiu de forma decisiva nos momentos mais desafiadores de sua carreira, especialmente nas comarcas do interior e nas varas criminais de São Bernardo do Campo e Ubatuba. Ali, em tempos de absoluta escassez estrutural, quando juízes dormiam em fóruns, consolidou-se uma visão de carreira comprometida com a realidade concreta dos jurisdicionados. Essas duras experiências ensinaram que decidir é, antes de tudo, assumir responsabilidades e consequências — princípio que o próprio desembargador associa hoje à maturidade ética exigida do julgador. À frente da Presidência da Seção de Direito Criminal, Roberto Solimene reafirma uma concepção de gestão baseada na escuta, na colegialidade e na transparência. Distante de modelos personalistas, defende uma governança compartilhada, em que magistrados e servidores participam ativamente das decisões institucionais. Iniciativas como a criação de sessões ordinárias urgentes para casos envolvendo réus presos demonstram que eficiência não precisa ser antagônica à legalidade ou às garantias fundamentais, mas pode ser seu complemento quando há compromisso coletivo e respeito às regras. Por fim, o legado que emerge de sua fala não é o da grandiosidade inpidual, mas o da gratidão, da humildade e da perseverança. Honestidade, verdade e solidariedade aparecem como valores inegociáveis, enquanto a tolerância e a vontade de servir permanecem como marcas permanentes da Magistratura, apesar das transformações tecnológicas e institucionais. Ao agradecer aos pais e aconselhar os mais jovens a não esmorecerem, Roberto Solimene reafirma uma lição simples e poderosa: a Justiça só se sustenta quando quem a exerce não perde de vista sua dimensão humana. Presidente da Seção de Direito Criminal – Desembargador Roberto Solimene Dejesp – Quem é Roberto Solimene? Difícil, falar de si mesmo é errado. Dejesp – Então fale sobre seu pai, sua mãe e sua família. São duas pessoas muito simples, somos todos muito simples e muito transparentes. Meu pai era do comércio e minha mãe do lar e professora. Eles eram imigrantes italianos. Tenho duas irmãs que já se foram há tempo, Maria José e Adriana, e o meu irmão Mario, que é do Direito, mas brilhou na música. Ele é regente, trabalha na Alemanha, em uma orquestra alemã, e tenho um filho, que cursa Direito, o Rafael Augusto, que é a minha esperança. Por último, mas não menos importante, meu farol e meu porto seguro: minha esposa Ana Paula. Dejesp – O senhor iniciou sua vida profissional fora da Magistratura, na Administração Pública Municipal. De que forma essas experiências iniciais influenciaram sua atuação como juiz e, posteriormente, como desembargador? Essas experiências sempre me fizeram mais próximo das pessoas com as quais eu pidia a responsabilidade de prestar serviço e com os tomadores de serviço. Sou muito acessível, quero saber se as pessoas estão satisfeitas com o serviço que prestamos, gosto de falar pessoalmente com as pessoas e isso aprendi lá na área da Saúde, onde comecei, na Prefeitura, há 50 anos. Trabalhei na Secretaria de Higiene e Saúde, onde fiz muitos amigos, e na iniciativa privada, mas sempre muito próximo dos colaboradores, nunca distante. Comendo a mesma comida. Dejesp – Ao olhar para sua trajetória desde a nomeação como juiz substituto em 1988 até a promoção por merecimento ao Tribunal em 2013, quais momentos foram decisivos para sua consolidação profissional? Primeiro, o apoio do desembargador Ivanhoe Nóbrega de Salles, falecido em 1990, que era o 4º vice-presidente do Tribunal e fez a gentileza de dar referências ao meu nome. Ele é pai de dois outros colegas: o Antonio Diogo de Salles, também já falecido, e o Carlos Alberto de Salles, que integra a 3ª Câmara de Direito Privado e a 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial. A minha aprovação foi um momento fundamental, à época tinha de 26 para 27 anos e era um concurso diferente dos de hoje. Minha gratidão também aos professores Rogério Lauria Tucci, Silvio Rodrigues e Yussef Said Cahali, que muito me estimularam. Eles foram fundamentais. Aos meus colegas de concurso Luiz Sergio Fernandes de Souza, Sérgio Leite Alfieri Filho e Dimas Rubens Fonseca porque, diante da insegurança natural que tínhamos no início da carreira, estimularam sobremaneira a superação das primeiras dificuldades. Dejesp – O que te levou a optar pela Magistratura? Eu trabalhava com a doutora Ivete Vargas (sobrinha-neta de Getúlio Vargas, uma das primeiras deputadas federais do Brasil, eleita cinco vezes consecutivas a partir de 1951, destacando-se por iniciar sua trajetória solteira e sem depender de cônjuge para ingressar na política). Era seu amigo e a acompanhei, inclusive, durante sua doença. Ela achava que eu tinha pendor para a vida pública, para a vida política, mas eu era mais pragmático e achava que na vida política estaria comprometido constantemente, e a imagem que tenho do magistrado – que guardo comigo e procuro praticar todos os dias – era uma imagem mais firme. Foi uma decisão familiar, conversando com meus pais, eu mesmo refletindo e conversando com a própria doutora Ivete Vargas chegamos a essa decisão. Imagina, estou falando coisas de 50 anos atrás! Guardo com muito carinho essas lembranças. Dejesp – Houve algum cargo ou comarca que tenha sido particularmente desafiador ou formador da sua identidade jurisdicional? Sim, São Bernardo do Campo, quando fui para a 4ª Vara Cível. Saí depois de um ano porque foi o combinado com o presidente José Alberto Weiss de Andrade, aliás o Francisco Loureiro era o designador à época. Voltei para São Paulo para fazer meu doutorado. Não fazia nem três meses que estava em São Paulo me pediram para ir para a Vara do Júri, Execuções Criminais, Infância e Juventude em São Bernardo do Campo para ficar mais um ano. Lá conheci gente maravilhosa, mas peguei muito problema. Trabalhar das 7 da manhã às 23 horas, nas duas unidades, porque não tinha computador, não tinha funcionário, não tínhamos assistente. Ali acho que mudou a minha vida mesmo. Dejesp – Era a época em que o juiz dormia no fórum? Eu dormi no fórum de Ubatuba e posso dar testemunho de pessoas que também ali dormiam: Pedro Manoel Ramos e Antonio Carlos da Ponte, promotores de Justiça. Dormíamos no fórum porque era época de alta temporada e não conseguimos nenhum hotel. Moramos durante uns seis meses na sala de audiência. O desembargador James Alberto Siano, que era de Caraguatatuba, foi quem conseguiu resolver nosso problema, arrumando o Hotel Jangada Praia. Mas tenho Ubatuba na mais alta conta. Também guardo com muito carinho aquele tempo e agradeço aos promotores que pidiram comigo aquele infortúnio, porque a gente fazia de uma tragédia, uma piada. Eu era colega de faculdade do Pedro Manoel Ramos, que é uma grande pessoa. Ele ainda está na ativa no Ministério Público. Dejesp – Sua carreira inclui passagem por persas varas criminais. Como essa vivência direta com o sistema penal influenciou sua percepção sobre os desafios atuais da Justiça Criminal? Vim para a Seção Criminal porque, no momento da promoção, eu tinha duas indicações e Sua Excelência, o presidente da Seção de Direito Criminal, desembargador Antonio Carlos Tristão Ribeiro – e eu tenho orgulho em sucedê-lo –, convenceu-me a vir para a Seção Criminal. Minha vida toda foi no Privado e tinha me projetado a ficar no Privado, mas a minha vivência anterior, nas unidades criminais pelas quais eu passei também colaborou. No entanto, o que mais ajudou a minha formação foi a companhia dos colegas. Eles me estimularam a permanecer e isso aqui, para mim, é uma família. Sempre que tinha um problema, no começo ia falar com o Antonio Carlos Tristão Ribeiro; conversava com o Mário Devienne Ferraz; com o Guilherme Gonçalves Strenger, meu irmão mais velho; conversava com o Luis Soares de Mello; com o Geraldo Francisco Pinheiro Franco; com o Nilson Xavier de Souza, que tenho o privilégio, hoje, de ser seu revisor na 11ª Câmara; com o Alex Tadeu Monteiro Zilenovski... Além do esforço de estudar, a amizade deles foi fundamental para a superação das dificuldades iniciais. E, às vezes, volto àquele tempo – já estou aqui desde 2013 – e vou abeberar conhecimento, como gestor na Presidência, dessas mesmas pessoas. A todos peço conselhos porque eles têm muita vivência, no crime são juízes-raiz. Dejesp – Existe alguma área do Direito em que o senhor entende que o magistrado enfrenta hoje maiores dilemas éticos ou institucionais? O magistrado deve se preocupar com as consequências das medidas adotadas em tudo o que faz. Aliás, isso não é nem um mandamento de bom senso, já superou porque está na regra. Está na Lei de Introdução, no artigo 20, se não me falha a memória. Diz a lei que não devemos decidir só com base na teoria e nos valores abstratos, sem considerar as consequências práticas. Sempre temos que fazer um exercício e pensar no que pode acontecer com uma decisão nossa e, quando pensamos no que os nossos pais, os nossos amigos, os nossos professores nos ensinaram, a possibilidade de erro é muito menor. Creio que hoje as pessoas não estão ouvindo, carecem de bons amigos, bons conselheiros, porque quando você tem uma formação familiar, quando a formação escolar é firme, você tem humildade de perguntar o que não sabe e as outras pessoas têm a generosidade de te sugerir um caminho. Na minha vida sempre me deixei guiar por esses pendores, portanto, nunca tive dilema ético. Àqueles que têm dilema ético o que posso recomendar é dar um reset e recomeçar, porque sempre há perdão para as pessoas. Quando as pessoas não vão bem, admitem que não vão bem e recomeçam elas têm essa segunda chance. Nós damos isso para as pessoas nos nossos julgamentos; por que não faríamos entre nós próprios? Dejesp – O senhor foi juiz auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça no biênio 2001/2002. Como essa experiência molda sua abordagem sobre padronização de práticas, qualidade das decisões e fiscalização da atividade jurisdicional na Seção Criminal? Tenho um amor muito grande pela Corregedoria. Lá o juiz se realiza, primeiro porque orienta, dá suporte e tem a possibilidade de conhecer mesmo o magistrado submetido a pressões e a desgaste. Vendo esses juízes submetidos à pressão e chegando a um bom juízo, a um bom conceito, e dando apoio, estimulando, contando as próprias experiências, ele acalma as pessoas e as estimula a adotarem o seu próprio caminho, o seu próprio estilo. Eu vi isso com um grande juiz: Luís de Macedo. Dejesp – Na sua opinião, qual é o equilíbrio ideal entre produtividade, qualidade das decisões e saúde funcional do magistrado? É difícil obter esse equilíbrio, porque não escolhemos a carga de trabalho a enfrentar. Não somos o trabalhador que tem descanso no sábado e no domingo, que tem a possibilidade de escolher o seu período de férias. A nossa saúde funcional não depende propriamente de nós, especialmente quando você é uma pessoa comprometida, esse é um primeiro ponto. O segundo, é a quantidade de trabalho. Obviamente, sou do tempo antigo, quando não tínhamos assistentes. Lembro-me que, no tempo em que eu era juiz de 1º Grau, os desembargadores tinham um escrevente. Hoje, com o eproc, não há controle da distribuição, a distribuição que vem é a distribuição que tem que vir. Você tem que ter um time bem treinado, tem que ter um bom orientador, e para enfrentar todas as questões não podemos ser prolixos. Tempo de guerra, decisões curtas; tempo de paz, decisões mais elaboradas. Mas São Paulo, há muito, não tem condição de viver um tempo de paz. A carga de trabalho é muito maior do que em qualquer outro tribunal. Não falo isso para fazer pouco caso dos outros tribunais, é uma questão estatística. Só para dar um dado: quando você pensa em eleição, por exemplo, na Argentina, no Uruguai, são eleições menores do que na cidade de São Paulo. Quando você pensa na zona eleitoral de Itaquera ela é maior do que muita capital europeia. Estou só dando um exemplo, a carga de trabalho aqui, pelo adensamento populacional e pela falta de recursos, é muito maior. Bem que hoje os recursos são muito maiores para toda a carreira. O juiz de 1º Grau conta com o apoio, se os colegas tivessem que voltar no tempo iriam verificar que trabalhávamos em condições muito adversas. Doutor Marcos Nogueira Garcez, de cuja amizade eu privei, disse-me que ele passou no concurso – nessa época não tinha escola, no meu também não teve, tivemos um curso de iniciação –, pegou um trem e foi para uma cidade do interior. No trem iam mais dois outros engravatados. Naquela época, quem dava a posse era o diretor do cartório e quem chegava primeiro ficava mais bem classificado na lista de antiguidade. O diretor dava a posse e colocava o horário; ali a lista de antiguidade começava a ser construída. Ele disse que chegou ao hotel junto com os dois engravatados, mas como era mais jovem do que eles, eles ficaram com o último quarto. Então o doutor Marcos Nogueira Garcez perguntou para o gerente do hotel se ele poderia fazer a gentileza de estender um colchão no corredor. "Durmo e amanhã de manhã o senhor abre um dos banheiros porque tenho que trabalhar." Ele não disse quem era. Ele dormiu no chão, pela manhã se arrumou e quando chegou ao fórum os dois engravatados foram despachar com ele. Lembro também que o Carlos Bianco me contou que foi com um Gordini, em 1967, tomar posse em Marília, uma estrada apertada (Gordini: automóvel compacto icônico no Brasil durante a década de 1960. Fabricado pela Willys-Overland do Brasil sob licença da francesa Renault, surgiu em 1962 como uma evolução técnica do modelo Dauphine). Eram outros tempos... Dejesp – Na sua visão, qual o papel da academia na formação de um magistrado mais sensível às transformações sociais e tecnológicas? Depende do momento histórico. Você vai falar: ‘não entendi a sua resposta’. Vou responder: me formei em Direito em 1984 e os meus professores tinham sido formados um pouco antes do Regime Militar. Eles pegaram o período do suicídio do Getúlio [Vargas] até o acontecido em março/abril de 64. A formação deles tinha uma característica até porque, quando jovens, eram estudantes no tempo do Regime Militar. A formação desses professores foi conduzida diretamente por esses episódios históricos. Obviamente, quando vão transmitir os conhecimentos para nós é um conhecimento informado por aqueles acontecimentos. Não estou dizendo, porque os professores tiveram essa rotina, que eles nos ensinaram que o Getúlio foi o melhor ou que o Regime Militar estava certo. Ao contrário, eles nos ensinaram que o melhor era mesmo a Democracia. O aluno é produto do que seus professores lhe transmitem, das cargas horárias, das disciplinas. Fui dirigente escolar, trabalhei 36 anos como professor e se volto hoje para uma faculdade, depois de toda essa carreira no Magistério – e tenho voltado por causa do meu filho – e vir as matérias que são repassadas, constato que são completamente diferentes das nossas. Eles ensinam a mesma ciência, mas com dados completamente diferentes e com uma perspectiva absolutamente diferente. Isso torna o resultado insondável, não sabemos o que vai acontecer. Agora, com a tecnologia, se for bem usada, ótimo. Vai somar. Mas o que temos visto é que a tecnologia tem tornado os tomadores da tecnologia pessoas preguiçosas. A Inteligência Artificial tem pensado no lugar dos pesquisadores. Ao invés do pesquisador ir atrás do dado, põe lá para a IA responder e não vai até a fonte confirmar. Muitos dos equívocos que vemos no dia a dia, alguns nos afetam outros não, são exatamente de informação. Encerrando e concluindo: no tempo em que tínhamos Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven e outros tínhamos tecnologia zero e havia muita criatividade. No futuro vamos ter muito de tecnologia e talvez nenhuma criatividade. Corremos o risco de perder o caráter, a substância humana por conta da preguiça. O fundamental na Academia é o professor menos ensinar e mais estimular a curiosidade para que o aluno, com base nos dados que busca na fonte, encontre a solução para os seus problemas. Lamentavelmente o que tenho visto é exatamente o contrário. Dejesp – O senhor presidiu a Comissão de Segurança Pessoal e Defesa das Prerrogativas dos Magistrados até 2019. Como avalia, hoje, o impacto da criminalidade organizada sobre a segurança dos magistrados e o funcionamento das varas criminais? Em primeiro lugar quero agradecer, e isso precisa constar, a Rachid [desembargadora Maria de Lourdes Rachid Vaz de Almeida] e o Roberto [Roberto Galvão de França Carvalho], que comigo compunham a comissão. Apesar de eu ter sido indicado pelo presidente do Tribunal para presidir a Comissão, trabalhávamos em regime absolutamente democrático. Nada era feito sem termos 100% de concordância e a Rachid e o Roberto tinham conhecimento da realidade da Seção Criminal muito maior do que a minha. Cito que nada mais fizemos do que a continuação do trabalho do desembargador Edison Aparecido Brandão e tenho que dar o braço e tudo a torcer: o Brandão é destaque nessa área. Substituir o Brandão foi um privilégio porque ele é uma pessoa muito ativa e conhece muito do assunto. Com relação à parte que poderia afetar os juízes como pessoas humanas, não como juízes prestadores do serviço de jurisdição, mas o juiz como cidadão sofrendo com a insegurança, somos pessoas como quaisquer outras. Pude ver ataques cibernéticos, furtos, problemas familiares, agressões, mas tudo foi resolvido absolutamente em conformidade com os padrões mais elevados de moralidade e legalidade que o Tribunal dá. Graças ao Brandão, graças à Seção Criminal, que sempre deteve esse setor, os juízes têm um nível de segurança muito grande. Aqui faço um destaque especial à Polícia Civil, sempre tivemos delegados excelentes e muito operosos. Quero também colocar a minha gratidão à Polícia Militar. Ficamos em uma posição confortável por causa do Brandão que instituiu, criou as rotinas e as Polícias Civil e Militar que sempre nos ajudaram. Dejesp – O seu currículo revela atuação intensa como juiz assessor em diferentes gabinetes (Presidência, Vice-Presidência e Corregedoria). Quais práticas de governança e gestão judiciária pretende aplicar na Seção Criminal? Primeira prática é a transparência. A segunda, é a participação de todos os colegas e dos nossos servidores. Ouço todo o mundo, não dou um passo sem pensar nas repercussões que podemos ter. Às vezes, quero fazer alguma coisa e alguém levanta um óbice. Tenho o meu grupo de conselheiros, não assumi a Presidência desvestido, vim bem acompanhado. Ouvir, ser transparente, adotar critérios... Devíamos ter dado publicidade para a primeira plenária da Seção Criminal que aconteceu em 27 de abril, com a presença de todos os presidentes de câmaras. Tudo o que estamos fazendo foi combinado com os 16 presidentes de câmaras e com todos os presidentes dos grupos. A minha pretensão não era a publicidade e sim estabelecer com eles um governo de coalisão, onde todos, mesmo os que não concordam, pensam de maneira diferente, seriam e têm sido ouvidos. Todos os problemas têm sido resolvidos porque nós ouvimos. Um problema que foi resolvido – e isso é fundamental – são as sessões ordinárias urgentes, para julgar nas virtuais os réus que estão presos e não podem esperar o conhecimento e o julgamento de seus habeas corpus, dos mandados de segurança, até mesmo das apelações. Temos recebido elogios, principalmente dos tomadores dos nossos serviços. Tem aquele réu que está preso, está doente ou existe mesmo uma ideia de que o resultado poderia lhe ser favorável. Com essa iniciativa, que partiu da Presidência da Seção, e que foi um sucesso – tanto é que a Vice-Presidência está adotando na Câmara Especial e acho que as outras Seções também estão adotando a criação da sessão ordinária, resolvemos um problema que os advogados viviam reclamando. ‘Por que está demorando? É um caso mais simples, o réu está preso, não dá para esperar, o réu está doente.’ Com a participação dos colegas e dos servidores os problemas são resolvidos com mais facilidade. Temos dois funcionários ótimos que também constantemente nos aconselham: o Luís Alberto Estevam (diretor de Processamento de Direito Criminal) e a Marcia Carolina Orlando Lopes (diretora de Assistência Técnica de Gabinete). Também gostaria de me referir à pessoa do presidente da Seção de Direito Criminal (biênio 2024/2025), desembargador Adalberto José Queiroz Telles de Camargo Aranha Filho, que sempre foi muito cordial e cavalheiro comigo. Além dele, o desembargador Fernando Antonio Torres Garcia (presidente da Seção de Direito Criminal em 2018/2019, corregedor-geral em 2022/2023 e presidente do TJSP em 2024/2025), o desembargador Geraldo Francisco Pinheiro Franco (presidente da Seção de Direito Criminal em 2014/2015, corregedor-geral em 2018/2019 e presidente do TJSP em 2020/2021), o desembargador Luis Soares de Mello (vice-presidente em 2020/2021) e o desembargador Guilherme Gonçalves Strenger (presidente da Seção de Direito Criminal em 2020/2021 e vice-presidente 2022/2023) sempre nos orientam no sentido de adotar soluções consentâneas com o que seria esperado da Presidência da Seção. Também conto fundamentalmente com o apoio, a colaboração e a competência dos juízes assessores, meus quatro mosqueteiros, aos quais preciso agradecer todos os dias: Anelise Soares, Bruno Ronchetti de Castro, Giovana Furtado de Oliveira e Vanessa Strenger e com a dedicação e o comprometimento da diretora administrativa de gabinete, Maria Fernanda Abbati dos Santos, minha primeira-ministra. A minha Presidência, na verdade, não é minha. Em termos de governança é um modelo diferente do que era adotado porque escuto, ouço e outros dirigem junto comigo. No quesito gratidão não posso deixar de mencionar Damásio Evangelista de Jesus – grande amigo e compadre, porque crismou o meu filho, que fiz no Magistério. Jurista, um dos principais especialistas em Direito Penal do Brasil, integrou o Ministério Público do Estado de São Paulo e foi advogado criminalista. A ele, também a minha eterna gratidão. Os padrinhos do meu filho são meus cunhados, Ana Cláudia e Zé Hermínio. Dejesp – Como presidente da Seção Criminal, de que forma o senhor pretende equilibrar eficiência judicial, garantia dos direitos fundamentais e rigor no combate ao crime organizado? Cumprindo a lei, irrestritamente. Nosso grande papel é cumprir a lei. Dar ao relator do processo, dar às câmaras, dar aos grupos o respaldo que precisam para realizar as tarefas institucionais. Se cumprirmos a lei tudo isso será realizado. O grande desafio é como cumprir a lei com rapidez. Temos adotado o lema desta gestão: julgar mais, julgar melhor e julgar mais rápido. Temos julgado mais, com eficiência e com rapidez. Para esse fim é preciso ter empenho, comprometimento e estamos todos comprometidos. Dejesp–O senhor foi eleito e reeleito para o Órgão Especial do TJSP pelo critério de carreira. Como conciliar tradição institucional e necessidade de inovação em um tribunal tão grande e complexo? Eu não fui um integrante tradicional do Órgão Especial. Vesti o papel que acho que os jovens dirigentes do Judiciário devem adotar, que é ouvir o Pleno. Sempre me preocupei com o Pleno e fui representante de quem me escolheu. Quem me escolheu? O Pleno. É um orgulho que vou carregar o resto da minha vida, de 360 tive 264 votos e sei que há outros que receberam ainda maior número. É uma responsabilidade muito grande e não podemos nos porciar do Pleno. Além do Pleno, pensei no corpo de nossos funcionários. Há três problemas que tenho tentado resolver em toda a minha carreira: primeiro, diminuir o espaço entre a Magistratura e o serviço público, os servidores são nossos irmãos, estamos todos juntos para realizar a mesma coisa.Segundo, o2º Grau e o 1º não podem ter distância, temos que estar também colados. Os do 1º Grau hoje, em breve, é piscar o olho, estarão no 2º. Foi o que aconteceu comigo. Nunca pensei que um dia estaria no Conselho Superior da Magistratura e Deus permitiu que isso acontecesse. E o terceiro, os órgãos de direção, os órgãos de administração sempre próximos, indissociavelmente próximos do Pleno. O nosso poder vem dos 360. São 360 carreiras, 360 desafios, 360 caminhadas gloriosas. Muitos desses colegas se satisfazem com julgar, nunca tiveram pretensão de ocupar outros cargos. Eles são muito, muito generosos. Dejesp–Ao longo de décadas na Magistratura, quais valores o senhor considera inegociáveis no exercício da jurisdição? Honestidade, não dá para negociar;segundo, verdade; terceiro, solidariedade. Precisamos ser todos solidários com a sociedade, especialmente para compreender quais são as pretensões que os brasileiros têm em relação à Justiça. São três valores que não dá para negociar. Dejesp–Qual legado pretende deixar para os magistrados mais jovens que ingressam hoje na carreira e lidam com um Direito Penal em constante transformação? De que tudo é possível quando queremos realizar. É só olhar para a minha carreira. Se eu consegui, qualquer um consegue. Dejesp–Se tivesse que resumir sua carreira em uma lição essencial, qual seria? Gratidão. Obrigado meu pai, obrigado minha mãe. Minha gratidão aos meus três irmãos e, especialmente, à minha esposa e ao meu filho. Dejesp–O que mudou desde o início da sua carreira e o que, surpreendentemente, permanece igual? Tolerância. Fiquei muito mais tolerante e devo isso à Magistratura. O que permanece igual é a vontade de servir, de fazer. Isso permanece inabalável, não mudou absolutamente nada. N.R.: texto originalmente publicado no Dejesp de 29/4/26
30/04/2026 (00:00)
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